COP30: Entre a História do Clima e o Bem Viver

Por Gabriela Cavalcanti, analista de Desenvolvimento Institucional - Instituto Teko Porã
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Em um momento em que os impactos da crise climática deixam de ser previsão e se tornam realidade, pensar o futuro da vida na Terra exige coragem. É nesse contexto que a COP30, chega ao Brasil e, pela primeira vez, o centro do debate volta-se para o coração da maior floresta tropical do mundo, região que simboliza não apenas a urgência da crise climática, mas também a potência das soluções que emergem dos povos e territórios da floresta.

A 30ª edição das Conferências das Partes não é um ponto de partida; é o ápice de uma trajetória iniciada há mais de três décadas, quando o mundo reconheceu que o meio ambiente não era um assunto paralelo, mas central para o futuro da humanidade. A compreensão dessa trajetória exige voltar a 1992, quando a ONU promoveu, no Rio de Janeiro, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92. Ali nasceram dois instrumentos essenciais:

a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC);

as Conferências das Partes (COPs), que se tornaram o principal fórum de negociação sobre clima no mundo.

Desde então, 29 COPs ocorreram, cada uma trazendo avanços, tensões e impasses. A COP1, em Berlim (1995), inaugurou as negociações formais; a COP3, em Kyoto (1997), produziu o primeiro tratado global, o “Protocolo de Kyoto”, com metas obrigatórias de redução de emissões; a COP21, em Paris (2015), aprovou o compromisso mais abrangente até hoje “Acordo de Paris”, envolvendo cerca de 195 países com o objetivo de reduzir emissões de gases de efeito estufa (GEE) e o compromisso de manter a temperatura média global em bem menos de 2°C acima dos níveis pré-industriais e de limitar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.

Mas, em paralelo a esses processos, consolidou-se também uma crise: a distância crescente entre o ritmo da diplomacia e a velocidade da emergência climática. Tempestades, secas, ondas de calor, queimadas se intensificaram e ecossistemas vitais inteiros aproximam-se perigosamente de pontos de não retorno: momentos em que os impactos ambientais tornam-se irreversíveis. Dito isso, os acordos na mesa de negociações se tornaram mais complexos pois precisa abarcar um vasto número de países e seus interesses que perpassam o clima e entram na esfera econômica, as pressões do setor privado que adentram os espaços de negociações incluindo na mesa os seus interesses e colocando em nova roupagem outrora a exploração banhada agora de desenvolvimento sustentável, assim as negociações passaram a refletir mais os conflitos geopolíticos do que a urgência científica.

Historicamente, o Brasil ocupa uma posição de destaque nesse cenário. Desde sua liderança na Rio-92 até sua influência decisiva na construção do Protocolo de Kyoto e do Acordo de Paris, o país consolidou uma imagem de ator diplomático habilidoso, capaz de dialogar tanto com países ricos quanto com nações em desenvolvimento (Bezerra, 2013). Durante décadas, foi a ponte entre o Sul Global e o Norte Global, articulando interesses, construindo consensos e propondo soluções, fazendo do Brasil um ator estratégico para as negociações.

A COP30 traz a Amazônia para o centro do debate mundial. Mais do que palco, a floresta torna-se sujeito, território vivo, essencial para a regulação climática do planeta e lar de saberes ancestrais que apontam caminhos para o futuro. A presença da Amazônia como eixo da conferência também expõe um conflito central: enquanto povos indígenas e comunidades tradicionais defendem modos de vida pautados pela reciprocidade e pelo cuidado, setores econômicos pressionam por modelos extrativistas que colocam em risco a própria base ecológica que sustenta o país.

Como lembra Ailton Krenak, em Ideias para adiar o fim do mundo, precisamos abandonar a lógica exploratória que separa ser humano e Terra. Para ele, a Terra pode simplesmente seguir seu caminho sem nós, e é exatamente essa consciência que deve orientar o futuro da governança climática, como uma lembrança do que esquecemos: não somos donos do planeta, somos parte dele.

Nesse cenário, o conceito de Bem Viver, que inspira a missão do Instituto Teko Porã, ganha centralidade. Ele nos lembra que a relação entre humanidade e natureza não precisa ser de exploração, mas pode ser de cooperação, cuidado e reciprocidade.

Ao trazer a conferência para o coração da maior floresta tropical do planeta, o mundo reconhece que soluções climáticas não serão construídas longe dos territórios, mas a partir deles. Reconhece que povos da floresta, comunidades periféricas, educadores, jovens, idosos, lideranças locais e organizações comunitárias têm papel vital na construção de caminhos possíveis.

A COP30 nos convoca a assumir que não há mais espaço para discursos desconectados da vida real. A crise climática já molda o cotidiano das periferias urbanas, dos povos tradicionais, das famílias atingidas por enchentes, secas e desastres ambientais como aqueles que o Instituto Teko Porã acolheu e apoiou recentemente no Rio Grande do Sul.

Assim como a conferência busca acordos globais, o Instituto constrói, todos os dias, acordos comunitários: pactos silenciosos de cuidado, solidariedade, educação, cultura, esporte e proteção social. Se por décadas discutimos metas, agora discutimos a própria capacidade de seguir existindo.

Referências Bibliográficas

Azzi, Diego Araujo; Farias, Everton; Matos, Giovana; Leite, Letícia; Franco, Luiz; Lagosta, Pedro; Martins, Rafaela. De referência a pária. A tragédia da diplomacia ambiental no governo Bolsonaro. In: Maringoni, Gilberto; Romano; Giorgio; Berringer, Tatiana (orgs). As bases da política externa bolsonarista: relações internacionais em um mundo em transformação. Santo André, SP: EdUFABC, 2021, p. 139-152. Disponível em: http://opeb.org/livros/

BEZERRA, Joana C. O papel do Meio Ambiente na Política Externa Brasileira. Ideias, v. 4,n.1,p.151-173.                     Disponível em:https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/ideias/article/view/8649401. 2013. Acesso em: 20 dez. 2024.

NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. Crise climática: “ações urgentes” são necessárias para garantir futuro habitável na Terra, alerta IPCC. Por Redação National Geographic Brasil.      Publicado        em:                     21    mar.    2023.    Disponível    em: <https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2023/03/crise-climatica-acoes-ur gentes-sao-necessarias-para-garantir-futuro-habitavel-na-terra-alerta-ipcc>. Acesso em: 20 nov. 2025.

PENNING BLANK, Dionis Mauri. O contexto das mudanças climáticas e as suas vítimas.Professor Msc no Curso de Direito da Faculdade Anhanguera de Pelotas, 2015.

SOARES, Terezinha de Jesus; HIGUCHI, Niro. A convenção do clima e a legislação brasileira pertinente, com ênfase para a legislação ambiental no Amazonas. Acta Amazônica, Manaus, v. 36, n. 4, p. 573-580, 2006.

WWF-BRASIL; WWF. Mundo atinge seu primeiro ponto de não retorno: mortalidade generalizada dos recifes de corais de águas quentes pode ser o primeiro ponto de não retorno ultrapassado. 13 out. 2025.