O mundo em que vivemos, vem passando por muitas transformações. Desde o século XVIII até agora, a humanidade de forma engenhosa, ampliou suas capacidades produtivas, tecnológicas e de gerar conhecimento, numa escala e velocidade, nunca observada na história. Do início da revolução industrial até agora, são precisos 265 anos. Com o avanço da ciência, se produzem máquinas e equipamentos que em tese, deixam a vida mais fácil e ágil. As novas tecnologias da informação, como a “Inteligência Artificial” e os avanços na medicina e da ciência, vem produzindo manejos de “cuidados” com a saúde e de ampliação da produção agrícola com muita efetividade. Mas qual o custo deste avanço? Esse bom resultado tem algum efeito colateral? Diante de tantos avanços tecnológicos, de fato como humanidade, estamos melhores? Está melhor para quem? O que melhorou?
Ao analisar a condição de vida de uma forma mais ampla, pela lente do conceito filosófico teko-porã, (que é traduzido como bem viver) e que significa, na visão de mundo guarani, plena conexão em equilíbrio entre seres humanos e natureza, percebemos que essa conta do desenvolvimento não está fechando. Mas por que essa conta não fecha? Há um desequilíbrio. Tanto entre seres humanos, e maior ainda entre seres humanos e natureza. Ao observarmos o apetite de boa parte da humanidade, percebemos uma corrida para satisfazer os desejos humanos e não as suas necessidades. O mundo que inventamos, se sustenta por uma dinâmica de produção e consumo, que não respeita os limites da Terra e sua principal alavanca se chama combustível fóssil, afinal o mundo é movido a carvão, petróleo e gás. Com isso, conseguimos inventar máquinas incríveis, que extraem minérios e produzem equipamentos de toda ordem e passamos a viver em cidades altamente adensadas, nos movendo por meio de transportes rápidos e fomos ao longo do tempo, nos distanciando do lugar que vivemos por mais de 300 mil anos[1]: a Natureza. Essa fração de tempo, desde a revolução industrial em relação ao tempo de vida da Terra, que é estimado em cerca de 4,5 bilhões de anos, é infinitamente pequena (0,00001%), mas altamente impactante, que faz com que muitos cientistas definam esta era, como período antropoceno, que sustenta a hipótese, onde o tempo geológico em que vivemos é marcado pelo impacto da ação humana no planeta. E esse impacto não está sendo positivo, do pondo de vista da vida.
No livro “O Bem Viver: Uma oportunidade de criar novos mundos” Alberto Acosta, nos convida a compreender o teko porã, numa perspectiva centrada no sociobiocentrismo, que contrapõe, o tempo em que vivemos, marcado pelo antropocentrismo. Mas o que isso significa? “Antropo”, significa “homem, humano”. Sendo assim, a era que estamos vivendo, centrada no humano, faz com que as outras formas de vida sejam subjugadas de tal modo, que muitas espécies de animais, peixes e plantas, estão literalmente sendo extintos. Com a devastação das florestas, monoculturas agrícolas com o uso de venenos, manejo agropecuário em larga escala e a exploração de minerais desenfreada, o habitat natural de muitas espécies está sendo afetado.
Além disso, para promover todo esse “desenvolvimento”, há uma queima de combustível fóssil muito grande o que tem elevado a temperatura média do planeta que já ultrapassou 1,5º desde a era pré-industrial. E o que isso significa? Significa, como dito por Aiton Krenak numa entrevista ao Itaú Cultural, que “os xamãs estão alertando: o céu vai cair sobre nossa cabeça!”. É uma linguagem metafórica, mas diz respeito direto ao que já estamos testemunhando e alertado há décadas pela comunidade científica da quais destacamos:
1. intensificação dos eventos climáticos extremos: com a elevação da temperatura global aumenta a frequência e a gravidade de ondas de calor, secas, tempestades, inundações e incêndios florestais;
2. elevação do nível do mar: com o derretimento acelerado das calotas polares e geleiras contribui para o aumento do nível dos oceanos, ameaçando comunidades costeiras e ecossistemas litorâneos;
3. escassez de água: aproximadamente 350 milhões de pessoas adicionais podem enfrentar escassez de água devido a secas severas com o aquecimento de 1,5°C;
4. perda de biodiversidade e extinção de espécies: mudanças rápidas nos habitats e temperaturas dificultam a adaptação de animais e plantas, levando à perda de biodiversidade e risco de extinção;
5. impactos na saúde humana: o calor extremo agrava a poluição do ar e aumenta o risco de doenças relacionadas ao calor, afetando especialmente populações vulneráveis, incluindo crianças pequenas de 0 a 6 anos e idosos, os mais atingidos;
6. insegurança alimentar: mudanças na frequência e intensidade das chuvas afetam a agricultura e a pesca, colocando em risco a segurança alimentar de milhões de pessoas;
7. cruzamento de pontos de inflexão climáticos: cada aumento na temperatura eleva o risco de ultrapassar limites críticos que podem causar mudanças irreversíveis e amplificar os efeitos negativos no sistema terrestre.
O Bem Viver como contraponto ao individualismo e ao materialismo contemporâneo.
Diante de todos esses pontos que são gravíssimos, o que podemos fazer? Como desenvolver resiliência para enfrentar esses grandes desafios. O que deveríamos fazer enquanto humanidade, para frear o aquecimento, seria em primeiro lugar, escutar o que os povos originários estão fazendo há milhares de anos, pois eles desenvolveram uma mentalidade e uma visão de mundo que possibilita viver em conexão com a natureza. Essa é a base inegociável do teko porã e para acessar esse conhecimento Kaka Werá nos aconselha em seu livro “Tekoá – Uma arte milenar indígena para o bem viver”.
“A conexão com as nossas raízes nos permite ter recursos inconscientes para lidar com os desafios da vida e prosperar, porque aqueles que nos antecederam tiveram que enfrentar percalços de seu tempo, e o modo como o fizeram se tornou uma qualidade inata em nosso subconsciente” (Wera, Kaka, p 82)
Precisamos enquanto humanidade, admitir nossos erros e voltar atrás, pois somos a primeira geração que está vendo de perto o impacto desta crise climática a talvez a última, que poderá tentar reverter esse cenário, que depende de ações individuais e institucionais, mas acima de tudo, de ações macro estratégicas, políticas e de decisões das nações que mais emitem carbono, colaborando para o aquecimento do planeta. Nós precisamos repensar nossa maneira de existir onde o pensar individual, contrapõe com o pensar coletivo, como já proposto pelos povos originários. Conectar com as raízes ancestrais, é olhar para o passado para acessar como chegamos até aqui como humanidade. São 300 mil anos na Terra e não podemos destruir a nossa casa em menos de 3 séculos, em nome do encantamento pelas máquinas, tecnologias, praticidades e por um modelo de sociedade que nos individualiza e vem promovendo além do adoecimento da terra, o adoecimento da alma e da mente humana. Assim como a Terra sangra, a alma humana em sua singularidade também sofre. Lidar com as incertezas da existência, o medo e de fato, com momentos de pavor, diante das catástrofes gera uma grande ansiedade e muitas pessoas não estão conseguindo lidar. Precisamos de pausa, de conexão com a natureza, e ampliar nossa compreensão dos fenômenos que estão acontecendo.
O Bem Viver, é um convite para que possamos resgatar as práticas dos encontros entre os povos para poder de fato encontrar o nosso lugar (lugar = tekoá) individual, onde a “reciprocidade, a cooperatividade e a gratuidade” (p.19 Wera, Kaka) inspiram valores éticos que são a base dos princípios do bem viver revelados “em três aspectos indissociáveis para uma existência saudável, fluida e plena” (p.20 Werá, Kaká).
“O lugar interior; O lugar que o indivíduo ocupa no mundo; O lugar como uma entidade coletiva chamada comunidade…”
“…para conseguir manifestar o bem-viver era necessário adquirir: O bem-pensar; O bem-sentir; O bem-fazer” (p.20 Werá, Kaká)”
Nesta perspectiva, encontrar o nosso lugar, nosso tekoa-porã, é perceber que necessitamos desse espaço interno, de olhar para dentro, descobrir quem somos, tocar nossa origem e nossa ancestralidade, mas também precisamos olhar para fora, perceber os papéis que exercemos no mundo, de cuidado, de atenção, de zelo com as pessoas e com a Terra, e compreender que também há um lugar por vezes muito esquecido, que nos conecta a uma vida de fato comunitária, onde há o encontro com o outro, onde podemos cuidar e ser cuidado, construir rituais, momentos de reciprocidade, celebrações, pois é neste lugar “comunidade”, onde construímos vínculos que nos dão o senso de pertencimento e assim enraizamos.
Como esses princípios orientam as ações do Instituto e inspiram práticas de cuidado, vínculo e coletividade.
Diante de cenários alarmantes e da reflexão que os povos ancestrais nos ensinam, temos nos inspirados a repensar nosso jeito de atuar de forma institucional. O acolhimento, a escuta e a inserção, são princípios que norteiam nosso trabalho junto as crianças, adolescentes, jovens, famílias e idosos e norteiam nosso cuidado com o time de profissionais e voluntários/as. Ao lutar para garantir os direitos socioassistenciais e promover espaços de cuidado em territórios altamente vulnerabilizados, estendemos as reflexões e práticas, convidando a população para participar também dessas mudanças. Nosso propósito institucional é combater as desigualdades sociais e a degradação ambiental. Fortalecer os vínculos familiares e comunitários, agora é também fortalecer os vínculos com a terra e com a natureza. Temos colocado em nossa agenda de forma interseccional o cuidado com a natureza, pois é essencial, que possam ampliar o nosso tempo de convívio, pensamento e sentimento, frente ao mundo natural, onde os reinos minerais, vegetais e animais se encontram. Observar, cantar, brincar, jogar, passear, pensar e cuidar, são práticas do cotidiano para que possamos reforçar nossa colaboração institucional e ajudar as pessoas a se reconectarem, de corpo, alma e mente, com a essência da vida, a natureza, e com a nossa casa, a Terra, da qual somos parte indissociável.
[1] Qual é a origem da humanidade segundo a ciência | National Geographic | National Geographic